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| - “ALERTA: Conhecido medicamento já fez 10 mortes em Espanha, e 11 casos em Portugal”. Este é o título de um artigo publicado na página “Semanário Extra”, referindo-se ao medicamento Nolotil. “A venda já foi restringida [em Espanha], no entanto é provável que muita gente ainda o tenha guardado em casa”, salienta o artigo. Mais: “Não foi estabelecida qualquer associação direta. A venda do medicamento, porém, foi restringida. E em Portugal? Não se passa nada…”
“No total foram 10 os turistas britânicos a morrer – e mais de uma centena de pessoas com sérias complicações – enquanto estavam a tomar Nolotil, embora não se tenha concluído que a morte foi motivada pelo analgésico. O medicamento já não era autorizado em países como os Estados Unidos da América, Reino Unido e Suécia. Viu agora a sua venda ser restringida em Espanha”, acrescenta, para depois concluir: “Por precaução, talvez seja boa ideia não o tomar… Alerte também os seus amigos e familiares nas redes sociais!”
Importa começar por sublinhar o óbvio: a decisão de tomar ou não um medicamento deve ser sempre tomada de acordo com a indicação do seu médico; não se baseie em informações recolhidas da Internet (as quais podem ou não ser fidedignas) para tomar esse tipo de decisões.
Quanto à informação veiculada no artigo em análise, sublinhe-se que a Autoridade Nacional do Medicamento (Infarmed) já emitiu um comunicado sobre esta matéria, aconselhando cuidados especiais na utilização de medicamentos para as dores contendo metamizol, nomeadamente o Nolotil (entre outros, como o Dolocalma e o Metamizol Cinfa), na medida em que podem gerar efeitos secundários graves.
A recomendação do Infarmed surgiu na sequência de um aviso da Autoridade para o Medicamento de Espanha para a utilização de fármacos com metamizol, após a morte de 10 turistas britânicos que adquiriram o medicamento em Espanha. No final de outubro, a Agência Espanhola de Medicamentos e Produtos Sanitários (AEMPS) atualizou a ficha técnica do metamizol, depois de este ter sido associado a essas 10 mortes. Mas ainda não foi comprovada uma relação direta com as causas de morte. No entanto, a AEMPS recomendou a proibição da venda do metamizol a turistas em Espanha.
De acordo com o comunicado do Infarmed, “a utilização de medicamentos contendo esta substância pode causar uma reação adversa (a agranulocitose) que, apesar de ser grave, é muito rara”. Também informa que “em Portugal, foram notificados ao sistema de farmacovigilância, entre 2008 e 2018, um total de 11 casos de agranulocitose potencialmente associados à utilização de metamizol, com uma frequência de um a dois casos por ano (o que se encontra dentro da frequência expectável de uma reação muito rara)”.
Como tal, o Infarmed aconselha a utilização “restrita a um período temporal curto”, no máximo de sete dias. Salienta que “estes medicamentos não devem ser utilizados em doentes com reações hematológicas prévias ao metamizol, em tratamento com imunossupressores ou outros medicamentos que possam causar agranulocitose” e ainda que “deve ser tida particular atenção à prescrição destes medicamentos em doentes idosos”.
No entanto, o Infarmed ressalva que “os doentes a quem foi prescrito metamizol não devem interromper o tratamento. Apenas será necessário consultar imediatamente o seu médico, caso surjam sinais e sintomas de discrasia sanguínea, tais como mal-estar geral, infeção, febre persistente, hematomas, hemorragias ou palidez”.
O Polígrafo falou com Isabel Branco, uma doente oncológica de 63 anos . Está a fazer reconstrução mamária no IPO do Porto e hormonoterapia. Desde o início do tratamento que os médicos lhe administram este fármaco. “Comecei a tomar Nolotil, receitado pelo meu oncologista durante a quimioterapia que, como sabe, destrói o glóbulos brancos”, afirma. Mesmo nesse estado de maior fragilidade, não lhe interromperam o tratamento. E agora, já em fase de recuperação, continua a comprar Nolotil com receita e vigilância médicas. “Continuo a tomar para combater o mal-estar provocado pela hormoterapia”, explicou.
O artigo do “Semanário Extra” é alarmista e contém várias informações falsas ou imprecisas. Desde a conclusão de que o Nolotil foi a causa direta das 10 mortes em Espanha, algo que ainda não estão comprovado (e como se reconhece logo no primeiro parágrafo do artigo, contradizendo o título), até à sua associação com “11 casos em Portugal” (que o Infarmed classifica apenas como “reações adversas” e num período temporal de 10 anos) e desembocando na conclusão errada de que “em Portugal não se passa nada” (ora, o Infarmed já atuou).
No essencial e sobretudo no que respeita aos “11 casos em Portugal”, este artigo é falso. E perigoso, na medida em que aconselha as pessoas a interromperem o tratamento com metamizol, ao contrário do que é aconselhado pelo Infarmed. Repita-se: “Apenas será necessário consultar imediatamente o seu médico, caso surjam sinais e sintomas de discrasia sanguínea, tais como mal-estar geral, infeção, febre persistente, hematomas, hemorragias ou palidez”.
Avaliação do Polígrafo:
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