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  • Numa semana marcada pela manifestação em Lisboa de elementos da Polícia de Segurança Pública (PSP) e da Guarda Nacional Republicana (GNR), o Jornal das 8 da TVI convidou o presidente do Sindicato Unificado da Polícia, Peixoto Rodrigues, para uma entrevista conduzida pelos jornalistas Pedro Pinto e Miguel Sousa Tavares — foi a 18 de novembro, três dias antes da manifestação. No dia 19, a página de Facebook Charlie Papa, seguida por cerca de cinco mil pessoas, escreveu que Sousa Tavares merecia o “Óscar do jornalista mais burro do ano” e publicou uma imagem compósita através da qual atribuía ao jornalista a autoria de quatro frases. Primeira frase: “Se não há polícias a morrer, como podem querer subsídio de risco?” Segunda: “Só porque o polícia diz que foi agredido não quer dizer que seja verdade”. Terceira: “O Governo não tem culpa, a culpa é dos tribunais”. Quarta: “Seus arruaceiros bêbados e armados”. Estava em causa a forma como o jornalista tinha conduzido a entrevista ao sindicalista, o que presumivelmente menosprezava algumas das reivindicações que determinaram a manifestação em Lisboa. Mas será que aquelas quatro frases foram realmente proferidas por Miguel Sousa Tavares? Ainda no dia 19, o site de verificação de factos Polígrafo concluiu serem falsas algumas daquelas frases atribuídas a Sousa Tavares. Em resposta, o Charlie Papa voltou ao assunto e classificou o Polígrafo como “mentígrafo”, alegando que a imagem compósita da véspera corresponderia a um ato satírico. Porém, em registo escrito não-satírico, mantinha o sentido das críticas iniciais: “Um ser que tenha o mínimo de capacidade e honestidade intelectual conseguirá entender com clareza que o jornalista em questão insinuou que as agressões contra polícias são fictícias” e “insinuou também que é pouco lógico os polícias serem considerados uma profissão de risco, em virtude de não morrerem polícias em Portugal e termos sido considerados um país muito seguro”, lia-se no Charlie Papa a 19 de novembro. Afinal, Miguel Sousa Tavares disse ou não disse aquelas frases? O vídeo da entrevista demonstra que as alegações da página Charlie Papa são erradas. Charlie Papa é uma página anónima de Facebook criada em agosto de 2017, cujo título remete para o alfabeto fonético utilizado pela NATO. A página publica textos e imagens sobre temas políticos e de segurança. A descrição que o autor da página oferece sobre si mesmo aponta-o como administrador de uma outra página, Carro de Patrulha, que por sua vez aparece assim descrita: “Entretenimento e motivação a elementos das forças de segurança portuguesas e cidadãos de bem que apoiam as forças de segurança portuguesas.” No Charlie Papa também constam conteúdos de apoio ao Movimento Zero, um grupo de protesto que junta agenes da PSP. O Movimento Zero é acusado de ter ligações à extrema-direita, mas alguns dos seus membros rejeitam a acusação. A 20 de novembro, para reafirmar o conteúdo da imagem compósita, o Charlie Papa publicou um vídeo de dois minutos com excertos da entrevista do Jornal das 8, da TVI. O registo completo original dura 10 minutos e encontra-se disponível no site da estação. Eis a transcrição integral do momento em que Miguel Sousa Tavares se refere ao subsídio de risco: “Uma das reivindicações dos polícias é o subsídio de risco, porque consideram que ser polícia é uma profissão de risco. Todavia, Portugal está considerado como dos dois países mais seguros do mundo, dos dois ou três. Estive a olhar para os números: nos últimos trinta anos, morreu em média 0,5 polícias por ano, com arma de fogo ou arma branca, no cumprimento do dever. Como é que uma coisa joga com a outra? A gente vê as redes sociais e vê sempre os polícias falarem num ambiente de insegurança total e tudo. Mas as pessoas não sentem isso. E a polícia devia estar orgulhosa por não sentirem isso, as pessoas.” https://www.facebook.com/charlie.papa.9047/videos/579463822788610/ O sindicalista entrevistado respondeu com números imputados à Direção Nacional da PSP: cerca de 400 elementos da PSP foram agredidos nos últimos 11 meses. Sousa Tavares afirmou de seguida: “Às vezes, aquilo a que a polícia chama uma agressão, o cidadão supostamente agressor não chama”. O sindicalista replicou que se referia a “agressões com entrada no hospital e o necessário tratamento”, dando a entender que não se trata de casos discutíveis, em que a palavra de um desafia a palavra de outro. O “sentimento de impunidade para quem agride” explica as agressões, acrescentou Peixoto Rodrigues, ao que o entrevistador perguntou: “Se existe esse sentimento de impunidade, a culpa é dos magistrados, não? Não é da lei, com certeza. A lei existe e pune”. Mais adiante na entrevista, Sousa Tavares perguntou: “Enquanto polícia, se o senhor visse que alguns dos organizadores da manifestação aconselhavam os manifestantes a não levarem armas nem irem alcoolizados, o senhor não ficava com medo dessa manifestação?” Comparemos, esquematicamente. Primeira frase: - Segundo o Charlie Papa: “Se não há polícias a morrer, como podem querer subsídio de risco?” - Discurso direto de Miguel Sousa Tavares: “Uma das reivindicações dos polícias é o subsídio de risco […]. Portugal está considerado como dos dois países mais seguros do mundo. […] Nos últimos trinta anos, morreu em média 0,5 polícias por ano […]. Como é que uma coisa joga com a outra?” Neste caso, a alegada citação da página de Facebook é uma paráfrase. Como citação, está errada. Além disso, Miguel Sousa Tavares não estava num espaço de opinião — estava a fazer uma entrevista, onde é suposto questionar as afirmações dos entrevistados. Segunda frase: - Segundo o Charlie Papa: “Só porque o polícia diz que foi agredido não quer dizer que seja verdade.” - Discurso direto de Miguel Sousa Tavares: “Às vezes, aquilo a que a polícia chama uma agressão, o cidadão supostamente agressor não chama.” Nova paráfrase, esta mais próxima do original, mas errada enquanto citação. Sendo que, mais uma vez, Miguel Sousa Tavares não estava num espaço de opinião — estava a fazer uma entrevista, onde é suposto questionar as afirmações dos entrevistados. Terceira frase: - Segundo o Charlie Papa: “O Governo não tem culpa, a culpa é dos tribunais.” - Discurso direto de Miguel Sousa Tavares: “A culpa é dos magistrados, não? Não é da lei, com certeza.” Citação errada e paráfrase rebuscada, uma vez que além do Governo também os partidos representados na Assembleia da República podem legislar. Quarta frase: - Segundo o Charlie Papa: “Seus arruaceiros bêbados e armados.” - Discurso direto de Miguel Sousa Tavares: “Enquanto polícia, se o senhor visse que alguns dos organizadores da manifestação aconselhavam os manifestantes a não levarem armas nem irem alcoolizados, o senhor não ficava com medo dessa manifestação?” Das quatro, é a paráfrase mais distante do que foi dito e manifestamente errada. Conclusão Perguntas e afirmações de Miguel Sousa Tavares no Jornal das 8, da TVI, surgiram parafraseadas numa imagem difundida no Facebook. Pode alegar-se que o sentido das palavras do jornalista foi aquele que o Charlie Papa lhe atribuiu — matéria de caráter interpretativo, que não pode sujeitar-se ao processo de verificação de factos. Ao colocar as frases em balões, à maneira da banda desenhada, o autor da imagem compósita pretendeu apresentá-las como citações ipsis verbis, o que não corresponde à verdade. Assim, segundo a classificação do Observador, este conteúdo é: Errado No sistema de classificação do Facebook este conteúdo é: FALSO: as principais alegações do conteúdo são factualmente imprecisas. Geralmente, esta opção corresponde às classificações “falso” ou “maioritariamente falso” nos sites de verificadores de factos. Nota: este conteúdo foi selecionado pelo Observador no âmbito de uma parceria de fact checking com o Facebook.
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