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| - “Como podemos confiar?”. A pergunta foi repetida esta semana em várias contas no Facebook e refere-se aos dados da Direção-Geral da Saúde (DGS) relativos aos doentes com Covid-19. Tudo porque um estudo sobre a qualidade dos dados epidemiológicos da DGS relataria que nestes podem encontrar-se mortos a “ressuscitarem” da 1ª para a 2ª base de dados; três homens e uma mulher que morreram grávidos e o caso de uma pessoa que morreu com 134 anos.
Será verdade?
A resposta é sim. O estudo em causa foi publicado no dia 5 de Novembro e resulta de uma parceria entre o CINTESIS – Centro de Investigação em Tecnologias e Serviços de Saúde – e a Faculdade de Medicina da Universidade do Porto e pretende, justamente, aferir a qualidade dos dados epidemiológicos da DGS, mais especificamente do Sistema Nacional de Vigilância Epidemiológica (SINAVE).
A equipa de 12 investigadores trabalhou sobre duas baterias de dados, ambas fornecidas pela própria DGS: a primeira sobre doentes Covid-19 diagnosticados até ao dia 27 de Abril, a segunda que vai de 28 de Abril até 4 de Agosto (cuja informação refletia o acumulado com a primeira leva de dados).
É da comparação, por um lado, entre a informação que transita do período até 27 de Abril para o total estabelecido a 4 de Agosto e, por outro, entre os dados gerais disponibilizados para os investigadores e aqueles eram tornados públicos diariamente pela DGS, que, segundo este estudo, resultam diversas “inconsistências significativas”, “dados incompletos” e uma genérica “baixa qualidade” dos dados recolhidos sobre as pessoas infetadas com Covid-19.
Em declarações ao Polígrafo SIC, Cristina Costa Santos, a investigadora que coordenou o estudo, considera da “maior relevância corrigir todo o sistema de informação que permitiu a existência desses erros”, pois “a tomada de decisão técnica e política pode assim partir de pressupostos errados”, uma vez que os dados “não são fiáveis”.
O número de doentes mortos devido à pandemia revelou-se uma das incongruências mais evidentes nos dados do SINAVE. Dos 455 casos de fatalidade – com a respetiva codificação individual – verificados até 27 de Abril, sete desaparecem no acumulado que é disponibilizado a 4 de Agosto. Assim, as sete pessoas dadas como falecidas por Covid-19, afinal já não o eram pouco mais de três meses depois.
Ainda na questão das mortes, a base de dados da DGS facultada aos investigadores indica que não houve óbitos em Junho, quando os boletins diários perfazem o total de 155.
O “COVID-19 surveillance – a descriptive study on data quality issues” deteta ainda outros dados de veracidade impossível no tratamento dos elementos que lhes foram disponibilizados: três homens grávidos, uma mulher grávida aos 97 anos e uma paciente com 134 anos.
Os totais da bateria de dados facultada em Abril quando vertidos no somatório dos dados disponibilizados em Agosto revela grandes discrepâncias: o total de doentes que a 27 de Abril era de 20293 passa a 16218 nos dados compilados em Agosto.
Em declarações ao Polígrafo SIC, Cristina Costa Santos, a investigadora que coordenou o estudo, considera da “maior relevância corrigir todo o sistema de informação que permitiu a existência desses erros”, pois “a tomada de decisão técnica e política pode assim partir de pressupostos errados”, uma vez que os dados “não são fiáveis”.
Esta semana, na conferência de imprensa diária de divulgação dos números da pandemia, a diretora-geral da Saúde reconheceu que “os dados de vigilância epidemiológica não são perfeitos”. Graça Freitas ressalvou que “não são dados de investigação científica”, estando a ser introduzidos por médicos e laboratórios, pelo que “há parâmetros que vêm muito bem preenchidos e outros menos, como em todo o mundo”.
É, então, verdadeiro que os dados fornecidos pela DGS contêm esses elementos errados.
Avaliação do Polígrafo SIC:
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