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| - Um dos maiores clássicos dos rumores colocados a circular em blogues e redes sociais portuguesas envolve um dos políticos portugueses mais marcantes de sempre (Mário Soares), um processo traumático (a descolonização) e… tubarões. Diz o rumor em causa que Mário Soares afirmou em 1973 que a solução para os brancos que viviam na África portuguesa seria “atirá-los aos tubarões”. A narrativa, disseminada até à exaustão, sobretudo por sites de direita, tem gerado múltiplas dúvidas, generosos insultos (dos opositores ao líder histórico do PS) e frequentes especulações ao longo dos anos. De quando em quando, uma nova vaga de partilhas volta a gerar uma onda de dúvidas.Vários leitores do Polígrafo solicitaram uma verificação de factos sobre o assunto através de e-mail, depois de muitos outros o terem feito na última vez que o rumor foi colocado a circular com insistência, em dezembro de 2018.
A resposta de hoje é a mesma de 2018: não é fácil tirar conclusões definitivas sobre o assunto.
Tudo começou com a divulgação de um panfleto com uma notícia do jornal de extrema-direita “A Rua”, de 2 de Junho de 1977. Intitulado “Mário Soares desejou que os portugueses do ultramar fossem atirados aos tubarões”, baseava-se numa crónica da autoria de Santana Mota, o correspondente em Lisboa do jornal brasileiro “O Estado de São Paulo”, segundo o qual em 1973, durante uma visita ao Brasil, Soares terá feito essa afirmação publicamente. Eis o print-screen do jornal:
Acrescenta “A Rua”: Custa a crer, mesmo conhecendo-se, como se conhece, o baixo estofo e a aterradora falta de escrúpulos que caracterizam o secretário-geral do PS. Custa a crer – mas ainda mais difícil é supor que um jornalista com a probidade de Santana Mota e um jornal com o prestígio de “O Estado de São Paulo” falam semelhante revelação sem a terem devidamente fundamentada.”
E conclui: “Daí, e até prova em contrário, chegamos à conclusão de que o nome de Mário Soares pode e deve estar à frente na lista dos Costa Gomes, dos Cunhais, dos Gonçalves, dos Crespos, dos Rosas Coutinhos e de toda esta galeria de criminosos, duplamente réus pela traição que cometeram contra a pátria e pela sangueira e desgraça em que lançaram centenas de milhar de portugueses. Se não é verdade, Mário Soares que o prove”.
O assunto motivou várias notícias de jornais, em que era dado como adquirido que a frase era verdadeira. Eis uma, dificilmente decifrável, mas com uma particularidade passível de criar dúvidas sobre a sua independência: na legenda que acompanha a imagem pode ler-se em letra maiúscula: “AS VÍTIMAS DO SR. MÁRIO SOARES E SEUS CÚMPLICES”.
Ao longo dos anos, muitos foram os que afirmaram que Soares seria incapaz de fazer aquele tipo de afirmação – isto apesar de este, por aqueles dias, ter produzido declarações algo incendiárias sobre o tema da descolonização. Foi o que aconteceu, por exemplo, numa entrevistas à revista alemã Der Spiegel, em 19 de Agosto de 1974 (era ele Ministro dos Negócios Estrangeiros), publicada no livro “Mário Soares- Democratização e Descolonização”, em que afirma, entre outras coisas, que “se necessário o exército atirará sobre os colonos brancos”. Esta frase é um dos argumentos mais esgrimidos pelos muitos que defendem que Soares efetivamente produziu a frase dos tubarões.
Em suma, é muito difícil afirmar de forma concludente que Mário Soares efetuou esta afirmação – mas dizer o contrário também seria um exercício especulativo.
Avaliação do Polígrafo:
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