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| - Uma publicação partilhada nas redes sociais há cerca de um mês atribui a seguinte citação a Maria do Rosário Carneiro, vice-presidente da Comissão Justiça e Paz: “Em Portugal, todos os anos, os relatórios mostram o aumento do número de pobres. Há cada vez mais pessoas a ficar para trás”. Apesar de a publicação não indicar a data e momento em que foram ditas estas palavras, é possível encontrar uma entrevista de Maria do Rosário Carneiro, também no mês passado, à Ecclesia, em que é abordado o tema da pobreza pela vice-presidente da Comissão Nacional Justiça e Paz.
A propósito de uma nota emitida pelas várias comissões Justiça e Paz espalhadas pelo país, Maria do Rosário Carneiro referiu, de facto, que “há pessoas a ficar para trás”. “Sempre houve, infelizmente. Nos últimos anos, temos visto o agravamento das pessoas a ficar para trás”, acrescentou.
E em relação aos dados sobre pobreza e risco de pobreza, a vice-presidente da Comissão Nacional Justiça e Paz adiantou que “em Portugal, infelizmente, todos os anos os relatórios relativos à situação de pobreza e das pessoas em risco de pobreza têm vindo a aumentar”. Sobre esta última afirmação, ainda não existem dados deste ano, nem do ano passado, que possam confirmar uma tendência crescente.
Há, no entanto, dados dos anos anteriores e que serão agora analisados para perceber se os níveis de pobreza têm aumentado. Importa, por isso, olhar para a taxa de risco de pobreza que é, de forma simples, a percentagem de pessoas que são consideradas pobres, ou seja, que vivem com menos de 60% do rendimento mediano nacional – em 2020, era considerado pobre quem vivesse com menos de 554 euros mensais, por exemplo.
Também no ano de 2020, a taxa de risco de pobreza fixou-se nos 18,4%, já tendo em conta as transferências sociais, que são os pagamentos feitos pelo Estado social, como pensões, reformas e subsídios. De acordo com os dados do Instituto Nacional de Estatística (INE), reunidos pelo Pordata, se não existissem as transferências sociais em Portugal, a taxa de risco de pobreza disparava para os 43,5%.
Mas concentremos a análise na taxa de risco de pobreza após as transferências sociais. Comparando 2020 – ano em que começou a pandemia – com o ano anterior, verifica-se, de facto, um aumento de 16,2% para 18,4%. “Este agravamento da incidência da pobreza foi o maior registado nas últimas duas décadas num único ano e correspondeu a um acréscimo de cerca de mais 228 mil pessoas em situação de pobreza”, lê-se na análise sobre a evolução recente dos indicadores de pobreza, publicada pela Fundação Francisco Manuel dos Santos.
E o último relatório do Observatório Nacional da Luta Contra a Pobreza, “Pobreza e Exclusão Social em Portugal”, explica que, em 2020, “enquanto uma parte das famílias atingiu um nível de poupança raro ao longo deste século e, no caso dos que mantiveram uma integração no mercado de trabalho, um ligeiro aumento das remunerações, outros viram-se privados dos seus trabalhos e atividades económicas“.
No entanto, desde 2015 que esta taxa tem vindo a descer, fixando-se nesse ano em 19,0%. Ou seja, nos últimos anos, a taxa de risco de pobreza tem vindo a diminuir, à exceção do ano de 2020. E o relatório referente aos dados apurados em 2019 pelo Observatório Nacional da Luta Contra a Pobreza sublinha exatamente esta tendência: “Após um pico de crescimento do risco de pobreza ou exclusão social durante o resgate financeiro a Portugal — chegando a atingir 27,5% da população entre 2013 e em 2014 — estávamos, em 2019, com o valor mais baixo desde o início da série“. Como ainda não são conhecidos os dados de 2021, não é possível afirmar que a pobreza tem vindo a aumentar nos últimos anos, como é referido na publicação partilhada no Facebook.
Conclusão
Não é verdade que o número de pessoas em risco de pobreza — pessoas que são consideradas pobres –, tenha aumentado consecutivamente nos últimos anos. Entre 2015 e 2019, a taxa de pessoas em risco de pobreza tem, aliás, vindo a diminuir. O ano de 2020 quebrou esta tendência decrescente, mas ainda não foram publicados dados mais recentes que permitam afirmar que os números estão a aumentar.
Assim, de acordo com o sistema de classificação do Observador, este conteúdo é:
ERRADO
No sistema de classificação do Facebook este conteúdo é:
FALSO: as principais alegações do conteúdo são factualmente imprecisas. Geralmente, esta opção corresponde às classificações “falso” ou “maioritariamente falso” nos sites de verificadores de factos.
NOTA: este conteúdo foi selecionado pelo Observador no âmbito de uma parceria de fact checking com o Facebook.
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