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| - “É incrível constatar que depois da desunião entre PS e o PCP/BE, as greves voltaram.” Este é um dos vários tweets que referem um aumento do número de greves depois de PS, PCP e BE terem desfeito a solução política que os unia.
O tempo dessa cisão e os factos que a consumaram variam entre essas publicações: algumas apontam para o fim formal da “geringonça” enquanto acordo escrito, que aconteceu em outubro de 2019, com a posse do segundo Governo liderado por António Costa; outras para os votos contra nos Orçamentos do Estado (BE no final de outubro de 2020 e PCP em outubro de 2021).
Para estabelecer um termo de comparação único – com a mesma fonte estatística – os únicos instrumentos disponíveis que reunem os dados de 2016 (primeiro ano completo da solução “geringonça”, constituída em novembro de 2015) até ao decurso de 2022 (inclusive) são os relatórios de evolução mensal, trimestral e anual dos avisos prévios de greve e serviços mínimos, elaborados pela Direção-Geral do Emprego e das Relações de Trabalho (organismo que integra o Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social).
O Polígrafo verificou os dados dos pré-avisos de greves (que podem não resultar em greves, pois podem ser desconvocadas), regista-se a seguinte evolução no número de pré-avisos (necessariamente maior do que aqueles que constam nas estatísticas que quantificam genericamente a existência de greves):
Pré-avisos de greve: últimos anos de “geringonça” / pós-“geringonça” (2021 e 2022)
*Ano com maior número de dias em confinamento
Fonte: Direção-Geral do Emprego e das Relações de Trabalho
Verifica-se assim que não houve, pelo menos para já, um aumento do número de pré-avisos de greve, existindo mesmo uma diminuição. Não contando com o ano de 2020 (atípico, pelo significativo número de dias em confinamento), é visível que nos dois últimos anos “regulares” (2018 e 2019) em que existiu apoio parlamentar do BE e do PCP ao Executivo socialista, houve mais greves anunciadas do que nos anos ou períodos que se seguiram ao primeiro orçamento reprovado por cada um destes dois partidos.
Na evolução dos pré-anúncios de greve dos últimos 10 anos, são evidentes duas tendências: maior conflitualidade social nos primeiros dois anos completos da governação de PSD/CDS (2012 e 2013), sob as medidas de austeridade da troika, reduzindo-se as greves a partir de 2014, com fluxos irregulares mas com um acréscimo significativo que se destaca, aquele que ocorreu em 2019, ainda sob o acordo político (até final de outubro) entre os partidos da esquerda.
Evolução dos pré-avisos de greve: da troika ao pós-“geringonça” – 2012 a 2022
2012-2015 – Governo PSD/CDS
2012 a maio de 2014 – intervenção da troika
2016/20 – Governo PS com apoio de PCP e BE)
*Ano com maior número de dias em confinamento
Fonte: Direção-Geral do Emprego e das Relações de Trabalho
É, assim, falso que as greves – pelo menos os seus pré-avisos – tenham aumentando desde o final da “geringonça”, designadamente desde que BE (primeiro) e PCP (depois) deixaram de viabilizar os Orçamentos do Estado do Governo socialista.
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Avaliação do Polígrafo:
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