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| - “Muito provavelmente influenciados pelas agências de notícias norte-americanas, vários órgãos de comunicação social de todo o mundo anunciaram que tinha terminado ‘a maior ponte aérea da história’, que retirou 120 mil pessoas de Cabul (…)”, começa por referir o texto publicado numa conta do Facebook, sob o título “Ignorância”. No mesmo post, o autor lamenta o desconhecimento sobre a história de Portugal, já que a ponte aérea entre Luanda e Lisboa, em 1975, “retirou 300 mil pessoas de Angola”, citando como fonte documental o site da RTP Ensina.
Saliente-se que foi o presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, o primeiro a comparar este tipo de operações, quando a 20 de agosto afirmou, em conferência de imprensa na sua residência oficial, que a ponte aérea que então decorria era “uma das maiores e mais difíceis de sempre”.
A 30 de agosto, dia em que o governo norte-americano deu por terminada a missão no Afeganistão, após a partida do último avião da ponte aérea, Kenneth F. McKenzie Jr., o general que lidera o Comando Central dos Estados Unidos, fez o balanço numérico da operação de resgate por via aérea. Mais de 123 mil civis foram retirados do Afeganistão para outros países, a que se devem juntar os também mais de cinco mil militares que ainda estavam em território afegão, a maioria deles enviada já em agosto para garantir a segurança daquele final de missão. Quer isto dizer que entre os dias 14 e 30 de agosto, na ponte aérea que partia do Aeroporto Internacional Hamid Karzai, em Cabul, foram transportadas, grosso modo, 130 mil pessoas.
Esta é mesmo a maior ponte aérea da história?
O 25 de Abril de 1974 e o consequente acordo para a descolonização de Angola, que previa a total independência do país em novembro de 1975, somado à extrema insegurança no território devido à guerra civil, que impedia que a paz conseguida entre a então potência colonizadora e um movimento representante da colónia futuramente emancipada tivesse tradução prática quotidiana, levaram milhares de cidadãos portugueses, muitos nascidos em Angola, a querer abandonar o país e rumar a Portugal.
O Estado português organizou uma ponte aérea para transportá-los. O intervalo de datas em que esta ocorreu e o número de passageiros abrangidos não são consensuais. A TAP foi o principal veículo desse vaivém, com diversos aviões fretados para o efeito. Segundo a RTP, conforme cita o autor do comentário no Facebook que deu origem a esta verificação de facto, a ponte entre Luanda e Lisboa, assegurada pela companhia de bandeira, decorreu entre 11 de agosto e 3 de novembro de 1975 e trouxe para Portugal cerca de 300 mil pessoas (a mesma RTP, noutra webpage, credita a fonte governamental 275 mil e um artigo de uma investigadora universitária aponta para 260 mil).
Muitos relatos sobre este transporte massivo e emergencial de portugueses, também realizado por companhias de aviação estrangeiras e que tinha igualmente como possível origem Nova Lisboa/Huambo e destino o Porto, aludem ao início das operações em julho de 1975 (alguns até a junho e maio) e outros referem que se estendeu até dezembro desse ano, sendo a delimitação mais frequente aquela que vai de julho ao início de novembro (quatro meses e pouco).
Quanto à ordem de grandeza, a maioria aponta para um número que ronda os 300 mil, nunca baixando esse valor dos “quase 200 mil”, referidos pela autora Rita Garcia no seu livro “S.O.S Angola – Os dias da ponte aérea”.
Em 1981, o XII Recenseamento Geral da População, realizado pelo Instituto Nacional de Estatística, apurou que havia 505.087 pessoas retornadas das ex-colónias, das quais 61 por cento com proveniência de Angola.
Tudo indica, portanto, ser falso que a ponte aérea que, em 17 dias de agosto de 2021, permitiu a cerca de 130 mil pessoas saírem do Afeganistão constitua a maior operação da história deste tipo. Embora num período mais longo (três a quatro meses), a ponte aérea de Angola para Portugal, durante a descolonização (1975), transportou entre 250 e 300 mil portugueses.
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Avaliação do Polígrafo:
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